Aula 01 — Apresentação da Disciplina e
Conceito de Paisagem
Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
2026-02-25
Objetivo da Aula
Conhecer a organização do componente curricular, seus objetivos, critérios avaliativos e produtos esperados; e iniciar a construção do conceito de paisagem como categoria analítica na Geografia.
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Disciplina | Análise da Paisagem |
| Créditos | 04 (60 h) |
| Encontros | 15 × 4 h (07h30 – 11h30) |
| Estrutura | 2 h teóricas + 2 h práticas |
| Período | 2026.1 |
| Modalidade | Presencial |
Por que análise da paisagem?
A paisagem é uma das categorias centrais da Geografia. Analisá-la significa:
| Sem. | Data | Conteúdo |
|---|---|---|
| 1ª | 25/02 | Apresentação + Conceito de paisagem |
| 2ª | 04/03 | Abordagens integradoras + Ecologia da paisagem |
| 3ª | 11/03 | Escala, padrão e processo |
| 4ª | 18/03 | Cartografia temática + Exercício |
| 5ª | 25/03 | Interpretação visual + Matriz de evidências |
| 6ª | 01/04 | 1ª Avaliação (Teórica I) |
| 7ª | 08/04 | Sensoriamento remoto I |
| 8ª | 15/04 | Sensoriamento remoto II |
| 9ª | 22/04 | Métricas e indicadores de paisagem |
| 10ª | 29/04 | Unidades de paisagem + Diagnóstico |
| 11ª | 06/05 | Planejamento territorial + Zoneamentos |
| 12ª | 13/05 | 2ª Avaliação (Serious Game) |
| 13ª | 20/05 | Atividade de campo |
| 14ª | 27/05 | 3ª Avaliação (Relatório de campo) |
| 15ª | 03/06 | 4ª Avaliação (Teórica II) |
Capacitar o(a) discente a analisar a paisagem como totalidade complexa, integrando componentes físico-bióticos e socioespaciais, por meio de métodos qualitativos e quantitativos voltados ao diagnóstico e ao planejamento territorial.
Saber ser
Avaliações
| Av. | Tipo | Peso |
|---|---|---|
| 1ª | Prova teórica individual | — |
| 2ª | Serious Game (grupo) | — |
| 3ª | Relatório de campo (individual) | — |
| 4ª | Prova teórica individual | — |
+ Avaliação contínua: exercícios, participação, fichamentos e entregas parciais.
Prova individual com questões objetivas e discursivas sobre:
Critérios: domínio conceitual, precisão terminológica, coerência argumentativa.
Desafio prático em grupo: diagnóstico territorial, seleção de evidências e proposição de diretrizes.
Critérios: tomada de decisão, justificativa técnica, consistência metodológica.
Relatório técnico individual a partir da atividade de campo:
Critérios: rigor descritivo, qualidade das evidências, coerência das conclusões.
Prova individual integradora sobre métodos, diagnóstico e planejamento territorial.
Dossiê de Análise da Paisagem (Estudo de Caso)
O produto principal construído ao longo do semestre será um dossiê técnico contendo:
O dossiê será construído progressivamente, com entregas parciais ao longo do semestre.
“A natureza deve ser sentida; quem apenas vê e abstrai pode passar uma vida inteira […] sem jamais compreender a natureza.”
— Alexander von Humboldt, Cosmos (1845)
Quando você ouve a palavra “paisagem”, o que vem à mente?
Registre mentalmente:
A paisagem é uma das palavras mais polissêmicas da Geografia. Seu significado varia conforme a tradição teórica, a escala de análise e o propósito do observador.
Paisagem no senso comum
No cotidiano, paisagem geralmente evoca:
Na ciência, especialmente na Geografia, o conceito é muito mais amplo e complexo. Não se trata apenas do que se vê, mas do que se interpreta, analisa e explica.
O termo Landschaft (alemão) e paysage (francês) surgem primeiro na pintura:
A arte antecipou a ciência: antes de ser objeto de estudo, a paisagem era objeto de representação.
Na ciência (séc. XIX em diante)
Alexander von Humboldt (1769–1859) inaugura o uso científico:
Humboldt propõe que a paisagem é mais que cenário — é síntese das relações entre clima, relevo, vegetação e vida humana.
“Compreender a natureza é, antes de tudo, compreender a totalidade da paisagem que se oferece ao olhar.” — Humboldt
Humboldt rejeitou a separação cartesiana entre sujeito e objeto. Para ele, o conhecimento geográfico nasce da interação entre razão e sensibilidade. Seu método se estrutura em três pilares:
| Etapa | Papel | Descrição |
|---|---|---|
| 1. Observação & Medição | O Cientista | Coleta rigorosa de dados empíricos no campo |
| 2. Intuição & Estética | O Artista | Apreensão sensível da totalidade da natureza |
| 3. Síntese & Generalização | O Geógrafo | União do particular com o universal; leis gerais |
Conceito-chave: Totalidade — O observador percebe a unidade das forças naturais através de uma “impressão total”. A paisagem não é um recorte arbitrário; é a totalidade percebida das relações entre clima, relevo, vegetação e vida.
O Naturgemälde (“pintura da natureza”) do vulcão Chimborazo é considerado o primeiro infográfico científico da história — uma síntese visual de dados climáticos, altimétricos e botânicos numa única imagem.
Escrito após a expedição às Américas (1799–1804), Quadros da Natureza funde dados científicos com prosa poética:
“A descrição da natureza […] pode ela mesma ser delimitada com rigor científico, sem por isso privar-se do sopro vivificante da imaginação.”
— Humboldt, Cosmos (1845)
Essa fusão entre ciência e arte inaugura a tradição geográfica de paisagem como totalidade complexa — exatamente o que faremos nesta disciplina.
| Tradição | Período | Conceito-chave | Representante |
|---|---|---|---|
| Alemã (Landschaft) | Séc. XIX–XX | Paisagem como totalidade natural regional; fisionomia e gênese | Humboldt, Passarge, Troll |
| Francesa (Paysage) | Séc. XX | Paisagem como expressão material das relações sociedade-natureza | Vidal de la Blache, Bertrand |
| Anglo-saxônica (Landscape) | Séc. XX–XXI | Paisagem como padrão espacial mensurável; ecologia da paisagem | Forman, Turner, Naveh |
| Humanista/Cultural | Séc. XX | Paisagem como experiência vivida, percepção, identidade | Sauer, Cosgrove, Berque |
| Brasileira | Séc. XX–XXI | Síntese entre tradições; domínios morfoclimáticos, geossistema, diagnóstico | Ab’Sáber, Monteiro, Santos |
Cada tradição ilumina uma dimensão. Nesta disciplina, trabalharemos com uma visão integradora, que articula estrutura, função, dinâmica e percepção.
A partir do séc. XX, a percepção da paisagem deixa de ser apenas visual para se tornar corpórea, social e vivida.
Implicação para a Geografia: a paisagem não é apenas o que se “vê de fora” — é o que se experimenta de dentro, com o corpo, a memória e as relações sociais.
Maurice Merleau-Ponty (1908–1961)
Alfred Schutz (1899–1959)
A paisagem é, simultaneamente, objetiva (relevo, clima, vegetação) e subjetiva (memória, afeto, identidade).
Serge Moscovici (1928–2014) propõe que criamos narrativas e códigos compartilhados para dar sentido ao mundo. A paisagem torna-se um espaço carregado de:
“O real que a filosofia deve ler […] são as representações que os sujeitos sociais constroem.”
— Hilton Japiassu
Da paisagem ao lugar
Quando uma paisagem é vivida, significada e carregada de afeto, ela deixa de ser apenas “paisagem” e se torna lugar — conceito que articula:
Yi-Fu Tuan (1930–2022) cunhou o termo Topofilia para descrever o elo afetivo entre a pessoa e o lugar. Características:
| Fase | Relação | Percepção |
|---|---|---|
| Estatal (antes) | Empresa “Mãe” | Orgulho, identidade, Topofilia |
| Privatizada (depois) | Empresa “Madrasta” | Medo, estranhamento, Topofobia |
O espaço físico é o mesmo — mas a paisagem subjetiva mudou radicalmente. Isso mostra que a paisagem não é apenas forma: é também relação.
Para que “paisagem” funcione como ferramenta de análise (e não apenas como descrição), ela precisa:
Ao longo do curso, percorreremos cada um desses requisitos.
Definição operacional para a disciplina
Paisagem é a expressão espacial da interação entre componentes físicos (relevo, clima, hidrografia, solos), bióticos (vegetação, fauna) e socioespaciais (uso da terra, ocupação, infraestrutura) em um determinado recorte espaço-temporal, configurando um mosaico heterogêneo com estrutura, funcionamento e dinâmica próprios.
Essa definição é integradora — não reduz a paisagem ao natural, ao visual ou ao cultural.
| Categoria | Ênfase | O que organiza |
|---|---|---|
| Espaço geográfico | Totalidade; produção social | Relações sociais e técnicas que produzem e transformam o espaço (Milton Santos) |
| Território | Poder; apropriação e controle | Relações de poder que delimitam e dominam porções do espaço (Raffestin, Souza) |
| Ambiente | Interação sociedade-natureza; sustentabilidade | Relações entre atividades humanas e sistemas naturais (visão ambiental) |
| Paisagem | Forma visível e estrutura; integração | Padrões espaciais resultantes da interação entre componentes; mosaico e dinâmica |
| Lugar | Experiência; identidade; significado | Vivência, pertencimento e valor simbólico atribuído ao espaço (Tuan, Massey) |
| Região | Diferenciação de áreas | Critérios de homogeneidade ou funcionalidade para recortar o espaço |
Essas categorias não se excluem — se complementam. A paisagem é a “face visível” do espaço geográfico, onde padrões e processos se materializam.
A paisagem integra:
A paisagem é uma totalidade que não pode ser reduzida a nenhum de seus componentes isolados.
Exemplo: paisagem do semiárido baiano
Ao observar a paisagem de Feira de Santana e entorno:
Tudo isso forma um mosaico específico, com padrões identificáveis e dinâmica própria.
Essa tríade matriz–mancha–corredor é a base da Ecologia da Paisagem (Forman & Godron, 1986) e será aprofundada na Aula 04.
Componentes funcionais
Além da estrutura visível, a paisagem possui funções:
A forma (estrutura) condiciona a função (processos). Modificar a estrutura é modificar os fluxos — e vice-versa.
A análise da paisagem envolve pelo menos quatro dimensões articuladas:
| Dimensão | Pergunta-chave | Exemplo |
|---|---|---|
| Estrutura | Como os elementos estão dispostos no espaço? | Mapa de manchas, fragmentação, heterogeneidade |
| Função | Quais processos e fluxos ocorrem? | Conectividade, dispersão, escoamento, serviços ecossistêmicos |
| Dinâmica | Como a paisagem muda no tempo? | Comparação temporal, trajetórias de uso, tendências |
| Percepção | Como a paisagem é vivida e significada? | Identidade, pertencimento, conflitos de percepção |
Nesta disciplina, daremos ênfase às três primeiras dimensões (estrutura, função, dinâmica), com aportes da percepção quando pertinente.
| Camada | Abordagem | O que revela |
|---|---|---|
| Paisagem-forma | Ecologia da Paisagem | Estrutura, manchas, fragmentação |
| Paisagem-totalidade | Geossistema (Bertrand) | Interação abiótico–biótico–antrópico |
| Paisagem-vivida | Fenomenologia (Merleau-Ponty) | Experiência corpórea, percepção |
| Paisagem-social | Representações (Moscovici) | Narrativas, ideologia, memória |
| Lugar | Topofilia (Tuan) | Afeto, identidade, pertencimento |
| Território | Territorialidade (Souza) | Poder, controle, fronteiras |
“O ‘Lugar-Mundo-Vivido’ e o ‘Lugar-Território’ coexistem. O geógrafo contemporâneo deve ler todas essas camadas simultaneamente.”
Esta disciplina oferece as ferramentas para integrar essas leituras em diagnósticos e propostas territoriais.
A análise da paisagem é hoje indispensável para enfrentar:
Aplicações profissionais
O(a) profissional que domina análise da paisagem pode atuar em:
Todos esses instrumentos exigem, direta ou indiretamente, leitura e diagnóstico da paisagem.
Internacionalmente
A paisagem é categoria-chave tanto na política ambiental brasileira quanto na agenda global.
Em uma folha A4 (ou anotação digital), responda:
Objetivo do exercício
“A paisagem está diante de nós todos os dias. O que muda é o repertório que usamos para lê-la.”
Elaborar fichamento da leitura de Bertrand (1971), destacando:
Na próxima aula (Aula 02)
Aprofundaremos a evolução do conceito de paisagem ao longo do século XX, discutindo:
Traga o fichamento — faremos discussão orientada da leitura.
O que vimos hoje
Obrigado!
Luiz Diego Vidal Santos
Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
Análise da Paisagem — Aula 01
UEFS — Ciência da Paisagem